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Por trás das camêras

Na semana passada, contei o bullying que sofri e como isso me afetou na vida adulta. Hoje, quero falar sobre os relacionamentos abusivos que tive com os técnicos que treinei. Mas antes de começar o nosso papo, gostaria que você soubesse que relacionamentos abusivos não se limitam a relações amorosas. Eles podem acontecer entre amigos, pais e filhos, no trabalho e no mundo do esporte não é diferente.

Jogar lesionada é algo normal para quem é atleta.

Mas quando se tem medo de perder uma bolsa de estudos, a dor vira, literalmente, algo psicológico. Nos EUA, tive a experiência de jogar para algumas técnicas que levavam a “dor é psicológico” ao pé da letra. Para elas, uma bolsa de água quente antes do jogo, e uma bolsa de gelo depois já resolviam o problema. Folga? Era algo raro de se ver. E o time jogava mal, era sempre aquele velho sermão: “Vocês não dão valor para a bolsa que vocês têm!” ou “Eu posso substituir vocês em um estalar de dedos.

No meu terceiro ano de EUA, eu jogava toda enfaixada por baixo do uniforme. Eu tinha lesões no ombro, no abdômen, na coxa, etc… Porém, eu nunca ficava sem jogar. A “fisioterapia” era algo para amenizar a dor. Nós nunca tínhamos tempo o suficiente para tratar a lesão. Afinal, o nosso calendário não permitia esse tipo de coisa. Até que um dia, eu precisei ser substituída.

Durante um jogo, eu comecei a tremer involuntariamente. Para mim, a tremedeira era só um detalhe que depois eu resolvia. Por isso, eu falava que estava bem. Lembro que o time adversário, as meninas do meu time, e a nossa Athletic Trainer tiveram que brigar com a minha técnica para me tirar do jogo. Mas, a técnica não queria. Afinal, nós estávamos jogando muito bem e o jogo era contra um dos times da cidade. Como que ela iria me tirar de quadra?

É claro que fui tirada do jogo.

Para completar, escutei um sermão mais do que merecido sobre “É só um jogo. A sua saúde e bem-estar devem estar acima de qualquer coisa.” Na mesma semana, estava no médico e descobri que estava com baixa de tudo, principalmente de ferro.

A minha relação com esta técnica era tão ruim que durante os dois anos que joguei para ela, eu ligava chorando para minha mãe quase todos os dias. O sofrimento era tanto que dizia que queria sumir do mapa e que queria morrer. Foram dois anos passando fingindo estar feliz por fora e, por dentro, só sentir tristeza e insegurança. Tudo para manter uma bolsa de estudos e viver o meu sonho de jogar no exterior.

Como o esporte era, e continua sendo uma das minhas grandes paixões, decidi fazer um mestrado na área.

Por isso, decidi fazer gestão desportiva no mestrado. Mas dessa vez, eu não podia mais receber uma bolsa atleta. Eu já havia jogados meus 4 anos. Por isso, precisei procurar um trabalho e um outro tipo de bolsa de estudos. E foi assim que consegui uma vaga de manager com a equipe de vôlei de praia da universidade.

Graças a esse trabalho, eu me qualifiquei para receber uma bolsa de estudos, LAC scholarship (Latin-American and Caribbean scholarhip – Bolsa para latino-americanos e caribenhos). Ela funcionava como um desconto. Em outras palavras, ao invés de pagar como estudante internacional, eu iria pagar a faculdade como uma estudante local.

  • Em números funcionava assim: Um estudante internacional pagava US$ 40 mil dólares por ano no mestrado. Já um estudante local (residente da Flórida) pagava US$ 10 mil dólares por ano.
Back Camera

Na época, eu estava no caminho de tese. Por isso, precisava fazer matérias de nível doutorado. Além disso, antes de receber a bolsa, eu já trabalhava meio período como assistente técnica em uma escola e em um clube. Por isso, eu não poderia me dedicar exclusivamente ao time da universidade. Apesar de ter explicado tudo isso, nada poderia estar acima do time de vôlei. 

Mais uma vez, aguentei comentários como: “você não dá valor ao que estou te dando” ou “você tem noção de quantos milhares de dólares você está recebendo?”. Pelo bem da minha sanidade mental, eu me fingia de desentendida de vez quando. Só para não dar uma resposta malcriada.

Para apimentar essa fase turbulenta, nessa época, a depressão piorou muito. A minha pesquisa e a tese não foram para frente, o rapaz de quem eu gostava decidiu casar com outra, e a minha relação com essa chefe só piorava.

Então, o que aconteceu?

 Como dizia Chico Xavier “Tudo passa.” E esse sofrimento teve fim. No último torneio em casa, eu tive uma crise feia de insônia. Como não consegui dormir, fiquei cansada. Quando estou cansada, com sono e com fome, eu não fico com humor não muito agradável. Ou seja, na hora que a minha chefe resolveu brigar comigo, a rebelde que habita em mim decidiu responder de volta.

É claro que eu fui demitida. Mas naquele momento, eu senti que havia recebido a minha carta de liberdade. E para minha sorte, neste dia, os chefes dela estavam no torneio. Por isso, resolvi aproveitar o meu momento de coragem e rebeldia para contar sobre o que estava acontecendo comigo e com o time.

As coisas ficaram tão sérias que o departamento atlético abriu uma “mini” investigação. Falaram com todos os managers. Foi nessa hora que descobri os comentários preconceituosos e racistas que eram ditos pelas minhas costas. Sem falar do bullying que eu sofria por não ter o “corpo ideal.”

Mas por quê eu aguentei tudo isso por tanto tempo?

Eu tinha medo de perder tudo o que eu tinha. Era muito insegura e não sabia o que fazer. Além disso, a cultura que eu conhecia sempre foi de escutar quieta e abaixar a cabeça. É difícil sair de uma situação quando você não conhece algo diferente, ou quando você não sabe onde pode se apoiar.

Eu não tenho raiva, nem rancor de ninguém. Como eu falei no último post, eu também não era nenhum anjo. Mas, ao escrever este texto, comecei a pensar que talvez elas não soubessem que estavam fazendo algo errado. Talvez elas não tenham tido outros exemplos. É possível que elas estivessem reproduzindo aquilo que elas viram e achavam que era certo. Vai saber? Por isso, sempre avalie e questione aqueles que você tem como exemplo e como referência. Não é por que fulano está fazendo errado que você vai fazer também.

E se você, querido leitor, já passou, está passando ou conhece alguém que está vivendo algo assim, procure ajuda. Eu sei que a vaga no time é muito importante e que o salário no final do mês é essencial. Mas nada no mundo compra a sua saúde e o seu bem estar.

No final, tudo vai dar certo e você não está sozinho!

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